Psicanálise x PBE
- Cristiane Marques

- 29 de ago. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de out. de 2024
Nos últimos tempos, a Psicanálise vem sendo questionada quanto a sua cientificidade, mais especificamente, acerca da falta de evidências da aplicação dos seus pressupostos e hipóteses na prática clínica.
Sem dúvidas, esse é um tema que divide opiniões e eu trago aqui uma breve reflexão, sem a intenção de apresentar certezas ou convicções, mas tão somente, contribuir com novos espaços de diálogos e trocas.
Para início, vamos relembrar que a Prática baseada em evidências (PBE) diz respeito à tomada de decisão consciente por parte do profissional de saúde, que deve levar em consideração não apenas a melhor evidência científica, mas também a individualidade do paciente.
Logo, a utilização da pesquisa clínica de alta qualidade, a experiência clínica do profissional de saúde e as preferências e valores do paciente são elementos fundamentais e indissociáveis para uma prática baseada em evidências.
O termo Psicanálise é utilizado para se referir a um constructo teórico baseado nos preceitos da hermenêutica (campo de estudo, de caráter investigativo, que tem por referência a interpretação dos sentidos implícitos).
Segundo Laplanche e Pontalis (1996), a Psicanálise pode ser compreendida em três níveis:
Um método de investigação que consiste em buscar o significado inconsciente das palavras, ações, das produções imaginárias de um sujeito; Um conjunto de teorias com seu próprio campo de saber e, ainda, um método psicoterápico de abordagem terapêutica e intervenção.
A partir daqui, dá-se início às discussões a respeito do tema. De um lado, aqueles que defendem a necessidade de evidências científicas, uma vez que a Psicanálise também se propõe a uma intervenção terapêutica. Do outro lado, aqueles que defendem a impossibilidade de obter “evidência empírica imediata e conclusiva”, porque a sua explicação causal utiliza fatores que só podem ser supostos e não enfaticamente demonstrados.
Outra perspectiva de discussão diz respeito ao questionamento: A Psicanálise faz parte das Ciências Naturais ou das Ciências Humanas?
Fato interessante é que o próprio Freud sempre situou a Psicanálise como uma Ciência Natural e fazia menção à sua cientificidade. Ele julgava estar procedendo de maneira similar a Galileu ou Newton, numa época em que as Ciências Naturais eram especialmente prestigiadas. Apesar disso, fica claro que ele incluiu o “imaterial” no conceito de Natureza. Do contrário, a Psicanálise não poderia ter o estatuto da ciência na sua busca por leis e causas para os fenômenos psíquicos.
Atualmente, grandes estudiosos da Psicanálise, como é o caso do professor Renato Mezan, psicanalista e professor titular da PUC-SP, discordam do argumento da Psicanálise fazer parte das Ciências Naturais. Para ele, é necessário examinar, com calma, as suas diversas facetas, refletindo sobre “Que tipo de ciência é, afinal, a Psicanálise?” “Não é a interpretação aquilo que singulariza a Psicanálise, na busca do sentido inconsciente de nossas produções mentais?”
Vale ressaltar que o entendimento quanto às particularidades e diferenças entre os dois grandes campos da investigação científica sofreu uma mudança com o tempo. Para a época de Freud, tratar de um fenômeno das Ciências Humanas (chamada de Ciência do espírito), não levava em consideração que tal fenômeno pudesse ser concebido pelas leis universais.
Na contemporaneidade, as Ciências Naturais representam um sistema objetivo de processos governados pelo determinismo, cujas leis podem ser desvendadas pela inteligência humana. Porém, o professor Mezan argumenta que as forças psíquicas não são mensuráveis em termos quantitativos, nem passíveis de matematização.
Para ele, muitas disciplinas estão sob o variado campo das “Ciências Humanas”, inclusive a Psicologia. O que há de comum entre elas é que todas tratam daquilo que o homem criou e, em regra, convivem com a ausência do método experimental (à exceção da Psicologia experimental), por considerarem que tal método não é conveniente ao tipo de objeto que estudam.
As Ciências Humanas produzem conhecimentos válidos através de métodos não-arbitrários. Cada disciplina humana define os procedimentos adequados ao seu campo; os critérios para o estabelecimento de hipóteses, com suas devidas confirmações ou refutações; os padrões de problemas considerados legítimos e os níveis de exigência para o trabalho científico.
Mezan defende que, apesar da não ancoragem no método experimental, o que possibilita o progresso do conhecimento nas Ciências Humanas é o estabelecimento de um núcleo sólido e indisputado de informações coerentes. O que faz uma teoria ser aceita é a sua consistência interna, sua compatibilidade com os princípios gerais do campo epistemológico da disciplina, e seu valor heurístico para lidar com novas descobertas, podendo ser modificadas ou completamente substituídas por outras quando algum fato novo as desafia com sucesso.
Dessa forma e, diante de argumentos tão contundentes, imagino que ainda será longa a estrada de tais discussões!
Particularmente, acredito na possibilidade de pontes, onde o constructo teórico e filosófico tão rico e vasto, proposto por Freud e até hoje amplamente utilizado e vivenciado, possa encontrar respaldo também na Pesquisa Científica.
Se vivemos um tempo de expansão e evolução, é possível que estudiosos de ambas as áreas aproximem os seus conhecimentos em busca de mais estudos e respostas.
Cristiane Marques

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